Servidor é quem mais deve no consignado



Apesar do verdadeiro pesadelo que isso pode significar para suas vidas, os brasileiros continuam acumulando dívidas. Dados do Banco Central mostram que, somente no crédito consignado — uma das formas de empréstimo mais baratas entre as disponíveis no mercado —, servidores públicos, por exemplo, têm um débito total superior a R$ 178 bilhões, saldo que cresceu 4,9% no período de 12 meses terminados em março. O funcionalismo é a categoria com o maior endividamento nessa modalidade. Com uma renda média de R$ 3.335, cada servidor deve, em média, R$ 15.534, o equivalente a 4,6 vezes o ganho mensal.

O terapeuta financeiro Jônatas Bueno explica que o trabalhador do setor público tem mais condições de se endividar, já que conta com estabilidade no emprego e um alto salário inicial. “As pessoas que entram no serviço público, geralmente, são mais novas, estão no início de carreira e acabam criando hábitos de vida muito caros”, avalia.

“Eu acho que ter estabilidade faz a gente se sentir mais disponível para se endividar”, concorda Lennon Duque de Barros, 35 anos, funcionário da Junta Comercial do DF. Lennon diz que já fez vários empréstimos consignados e que não se arrepende. “Nesse tipo de crédito, o valor das parcelas não pode passar de um terço do salário do servidor. Isso dá uma certa segurança”, argumenta.

Quando as contas a pagar ultrapassam o dinheiro disponível, no entanto, é um sinal de alerta, observa Jônatas Bueno. Ao contrário de Lennon Barros, a experiência do também servidor Carlos Saviolli, 56, foi desastrosa, a ponto de ter passado a tomar remédios para depressão e pressão alta.


Portabilidade de dívida

Saviolli conta que, em março de 2015, tomou um empréstimo consignado de R$ 60 mil na Caixa Econômica Federal, pelo qual pagava uma prestação mensal de R$ 1.350. Atraído por uma oferta de juros mais baratos, porém, ele decidiu fazer a portabilidade da dívida para outra instituição. A troca, porém, piorou sua condição financeira, pois os juros, na verdade, eram maiores do que o combinado verbalmente.

O servidor conta que fez um acordo para refinanciar o débito, que incluía um novo empréstimo de R$ 20 mil, valor que acabou não sendo integramente liberado. Após gastar dinheiro com advogados e pagar 22 parcelas de R$ 2.600, Saviolli fez uma reclamação ao Sistema de Gestão de Pessoas do Governo Federal (Sigepe), que acabou bloqueando os descontos das prestações do contracheque do servidor. Hoje, a dívida voltou para a Caixa e as parcelas são de R$ 1.200.

O transtorno financeiro, porém, obrigou Saviolli a abrir mão do carro e do plano de saúde. Ele teve ainda que penhorar joias e quase teve de vender a casa para pagar os compromissos. “Isso causa terror na gente. Há pessoas que até fazem empréstimos com agiota, mas aí a dívida cresce como bola de neve, e elas perdem a noção das coisas. Eu não andava de ônibus havia 20 anos. Agora, pego todo dia, porque tive que abrir mão da vida que tinha”, lamenta.
Fonte: Correio Braziliense, em 06/05/2018
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