A Odisseia dos servidores do TRE/MG


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O mar de cabeças na rua Juca Prates prenunciava o oceano de pernas no viaduto Manoel Emiliano. À praia homens e mulheres com o salvo conduto em forma de crianças de colo. Filhos marmanjos saudáveis também ousavam estar no colo de seus pais moribundos de muletas com pernas quebradas. Nunca pensei que a senha preferencial expusesse o longo canal da mancha que nós brasileiros ainda teremos que nadar e superar. A mancha além da corrupção, mas a da solidariedade maquiavélica em forma do jeitinho brasileiro. A que escamoteia a realidade e contribui para a eternização de práticas antiéticas, imorais e pérfidas do cidadão comum e das instituições.

Como aplaudir a capacidade de servidores que alienam sua vida, mais precisamente seus braços cheios de bursite, sua coluna de hérnias, olhos secos e embaçados, ombros tensos de torcicolos, deixando para depois até o gole dágua ou a ida ao banheiro? Acaso um dos critérios para se ser servidor do TRE é ter sangue e cóccix de ferro? Acaso é nosso dever fomentar a cultura da fila, da complacência, da desinformação e do arcaísmo como projeto de nação que se diz democrática?

Seríamos demasiadamente voluntariosos ao pensar que podemos contribuir para a quebra desses hábitos que irrompem a nossa cultura e que só se podem desfazer em um processo longo, lento e imperceptível? Temos que começar de algum modo!

Mas o que vemos é a caristia do novo nas instituições. Porque o novo é confundido com a urna eletrônica, quando o que deveria ser era um novo cidadão. Não há processo tecnológico que substitua a fiel representatividade popular. O sufrágio continua falso, existe uma sensação incômoda de desvio na vontade de se fazer o título eleitoral e na hora do voto. No entanto, reconheço que isso é filosófico demais para ser tratado em um atendimento que meramente alimenta os dados no sistema que vai para as urnas…

E nosso papel é brilhantemente desempenhado. Fosse qualquer número de requerentes à habilitação do voto, estaremos a postos, mesmo sem estrutura, mesmo sem cafezinho, mesmo sem reconhecimento do plano de carreira, mesmo sem outra vida para compensar a alienação da nossa. Não raramente levamos esclarecimentos ao eleitor. Muito se diz ao analfabeto que o seu voto é facultativo e os seus olhos brilham com a notícia de que sua aposentadoria não poderia ser cortada se ele não quiser ou não puder votar.

Muito é dito que toda vez que se pedir a sua assinatura só se pode ser a sua… Muito se é ouvido: ” pra quê tanta Democracia?” na intenção de se dizer burocracia… No entanto, a messe é grande e muito mais há que se ser esclarecido. Não é só um oceano que temos que navegar e transpor, mas os cinco. Infelizmente, alimentar boatos na mídia e desinformar tantos Fabianos gracilianos não contribui nem com um bote. E ajudar a maquiar algo que funciona mal dando-lhe a aparência de eficiência real é garantir a sua perpetuação e fechar as oportunidades para o novo.

Não estou feliz com a minha alta estatística de atendimentos realizados no último dia antes do fechamento do cadastro eleitoral porque significou uma quebra dos meus valores filosóficos. Ao permitir a alienação de minha vida contribui para além de minha morte, mas para a manutenção de uma falsa cultura de eficiência.

Conclamo os colegas a pensarem “…no pensamento de Sócrates, isto é, em seu viver de acordo consigo mesmo, a violação de outra pessoa equivaleria a uma auto – violação. “(Jerome Kohn) Vocês não se sentiram violados? A minha decepção comigo mesma só não é maior porque sou incapaz de colocar a minha filosofia de vida acima do respeito aos colegas. Uma situação a que maquiavelicamente estamos subordinados. E que expõe a nossa luta institucional. Conquanto tenho esperanças em dias melhores, o espanto pode nascer até em olhos insensíveis, quiçá naqueles estultos. O milagre e a utopia ficam entregues ao sonho de vermos nascer um novo cidadão.

Por Cibele Nunes Alencar, servidora do TRE/MG

Fonte: Sitraemg, em 05/05/2016

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